(Guarda o taco de volta no baú e pega a garrafa de conhaque)
Quer dizer...tinha uma coisa que o Hank sabia fazer. Tinha sim. Ele me ensinou uma vez. Podicrê, eu me lembro ainda. Ah, é assim ó, peraí...
(Faz sinal para esperar com a mão enquanto entorna o resto de conhaque, deixando a garrafa vazia. Dirigindo-se à platéia)
Cê pega uma garrafa vazia, que nem essa aqui...
(Dá uma última talagada, certificando-se que tomou até a última gota)
Encha a porra da garrafa até a metade com gasolina, depois cê pega um pedaço de pano...
(Procura um pedaço dentro do baú e não encontra. Rasga um pedaço da blusa na manga).
Aí você enfia o pano na boca da garrafa, assim ó. Tem que tapar bem a boca, de modo que não entre ar. Depois é só acender...
(Tira o isqueiro do bolso e acende)
Aí você espera os táxis na avenida e fica na frente deles com a garrafa.
(Enfurecida, como se gritasse para carros imaginários)
Cambada de filhos da puta, olha aqui pra vocês!
(Mostrando o dedo médio)
Toma lá cambada de maricas, seus pelegos traidores! Vão se foder seus bostas. Toma aqui pra vocês...(arremessa a garrafa em direção à coxia).
(Senta-se no chão dando gargalhadas. Acalmando-se)
Foi o avô do Hank quem o ensinou a fazer um coquetel molotov. Ele lutou na guerra. Não o Hank, o avô do Hank. O Hank sempre dizia que quem nasceu em 1972 nunca teve guerra nenhuma pra lutar.
O avô dele era um russo malucão, ele lutou na guerra. Lutou sim...Ele ensinou o Hank a fazer bombas de fabricação caseira. Ele deu esse chapéu aqui pro Hank, depois o Hank deu pra mim. Ele lutou na guerra com esse chapéu.
(Excitada)
O velho dizia que quem inventou o coquetel Molotov foram os finlandeses em 1939 pra ser utilizado contra o exército russo durante a Guerra de Inverno. É sim.
(Didática)
A combinação de gasolina, ácido sulfúrico e cloreto de potássio foi batizada com o nome do presidente de Conselho de Ministros da União Soviética, Viacheslav Molotov, um dos principais responsáveis pelo rompimento do acordo entre os países. O sacana dizia em programas de rádio que os soviéticos não estavam jogando bombas sobre os finlandeses e sim alimentos. Então os finlandeses, mais sacanas ainda, retribuíam dizendo que suas bombas eram cestas de pão de Molotov.
(Voltando a se excitar)
Os finlandeses costumavam dizer: "Que venham os russos, vamos servir coquetéis para Molotov".
(Entre a excitação e a fúria)
Que venham os russos, vamos servir coquetéis para Molotov! Que venham os russos, vamos servir coquetéis para Molotov...
Em breve em algum porão em São Paulo

