27/06/2011

PARA VIACHESLAV MOLOTOV

...O Hank não sabia de porra nenhuma. Não sabia fazer nada.

(Guarda o taco de volta no baú e pega a garrafa de conhaque)
Quer dizer...tinha uma coisa que o Hank sabia fazer. Tinha sim. Ele me ensinou uma vez. Podicrê, eu me lembro ainda. Ah, é assim ó, peraí...

(Faz sinal para esperar com a mão enquanto entorna o resto de conhaque, deixando a garrafa vazia. Dirigindo-se à platéia)
Cê pega uma garrafa vazia, que nem essa aqui...

(Dá uma última talagada, certificando-se que tomou até a última gota)
Encha a porra da garrafa até a metade com gasolina, depois cê pega um pedaço de pano...

(Procura um pedaço dentro do baú e não encontra. Rasga um pedaço da blusa na manga).
 Aí você enfia o pano na boca da garrafa, assim ó. Tem que tapar bem a boca, de modo que não entre ar. Depois é só acender...

(Tira o isqueiro do bolso e acende)
 Aí você espera os táxis na avenida e fica na frente deles com a garrafa.

(Enfurecida, como se gritasse para carros imaginários)
Cambada de filhos da puta, olha aqui pra vocês!

(Mostrando o dedo médio)
Toma lá cambada de maricas, seus pelegos traidores! Vão se foder seus bostas. Toma aqui pra vocês...(arremessa a garrafa em direção à coxia).

(Senta-se no chão dando gargalhadas. Acalmando-se)
Foi o avô do Hank quem o ensinou a fazer um coquetel molotov. Ele lutou na guerra. Não o Hank, o avô do Hank. O Hank sempre dizia que quem nasceu em 1972 nunca teve guerra nenhuma pra lutar.

O avô dele era um russo malucão, ele lutou na guerra. Lutou sim...Ele ensinou o Hank a fazer bombas de fabricação caseira. Ele deu esse chapéu aqui pro Hank, depois o Hank deu pra mim. Ele lutou na guerra com esse chapéu.

(Excitada)
O velho dizia que quem inventou o coquetel Molotov foram os finlandeses em 1939 pra ser utilizado contra o exército russo durante a Guerra de Inverno. É sim.

(Didática)
 A combinação de gasolina, ácido sulfúrico e cloreto de potássio foi batizada com o nome do presidente de Conselho de Ministros da União Soviética, Viacheslav Molotov, um dos principais responsáveis pelo rompimento do acordo entre os países. O sacana dizia em programas de rádio que os soviéticos não estavam jogando bombas sobre os finlandeses e sim alimentos. Então os finlandeses, mais sacanas ainda, retribuíam dizendo que suas bombas eram cestas de pão de Molotov. 

(Voltando a se excitar)
Os finlandeses costumavam dizer: "Que venham os russos, vamos servir coquetéis para Molotov".

(Entre a excitação e a fúria)
Que venham os russos, vamos servir coquetéis para Molotov! Que venham os russos, vamos servir coquetéis para Molotov...

Em breve em algum porão em São Paulo 

11/06/2011

UIVANDO POR AÍ


Sempre gostei de bancas de jornal. Sou compulsivo por revistas e quadrinhos. Embora os títulos mais significativos de HQ hoje estejam destinados às livrarias, ainda é possível se deparar com publicações interessantes nas bancas. 

Lembro de minhas peregrinações por bancas do centro no início dos anos 90, buscando os números antigos de Sandman e esperando pelos novos. Porra, tinha também Monstro do Pântano, Deadman, Orquídea Negra, Sin City, Lobo, Run Xerox, Lobo Solitário, V de Vingança. Isso sem contar Chiclete com Banana, Animal, Mil Perigos.  Era foda aquela excitação estranha quando chegava o número do mês e podia-se vê-lo ali, novinho em folha numa pilha esperando por você.

Sempre que voltava do trabalho sentava num balcão de uma padaria e pedia uma cerveja enquanto lia o Caderno 2 e a Ilustrada, isso num tempo muito distante em que ainda se fazia jornalismo de verdade lá no bairro do Limão e nos Campos Elíseos.  Hoje simplesmente não consigo ler a Ilustrada. O Caderno 2 ainda tem um Jotabê Medeiros, um Lauro Lisboa que salvam algumas páginas. Trabalhei  6 anos na Folha, de 1998 a 2004, e posso garantir, não existia na face da terra uma redação mais cheia de empáfia e mediocridade. Não se faz mais jornalismo nos grandes veículos de comunicação, salvo raríssimas exceções. Os jornalistas de verdade estão fora da grande mídia, estão fora do jogo dos grandes complexos econômicos que muitos meios se transformaram. Aí não dá pra acreditar quando alguém diz que não tem rabo preso.  

Estou sendo anacrônico, tudo bem. Certa vez numa dessas entrevistas de emprego em que o cidadão, com o manual de RH debaixo do braço, me perguntou qual era o topo mais alto que eu almejava na minha vida profissional, respondi:  Ter uma banca de jornal. Ter uma banca de jornal num bairrozinho qualquer de São Paulo, onde eu acorde numa manhã fria usando chinelo por cima das meias furadas, uma calça velha de moletom, camisa de flanela e um cachecol desfiando e me arraste,  depois de tomar café com leite e comer pão com manteiga na padaria, até minha banca onde só venderei gibis e revistas de mulher pelada. Se ninguém quiser comprar os títulos que vou vender, tá tudo OK, foda-se.

 O lance de ter uma revista em banca de jornal também sempre me atraiu. Foi por isso que publiquei durante 10 anos uma revista com meu amigo Douglas Silva. A Etcetera nunca saiu das páginas virtuais da internet, mas em seus 25 números foi pensada  desde o princípio como uma revista de banca de jornal.    

Estou falando tudo isso por conta do lançamento da 22º edição da revista Coyote.  Há 9 anos editada em Londrina por Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes e Marcos Losnak.  Já virou meio clichê repetir isso, e é justamente ai onde mora a Dona Ironia, mas é motivo de comemoração uma revista de arte e poesia chegar a 9 anos de existência no Brasil. Isso é o que eu chamo de guerrilha cultural.  

A edição, sempre caprichada com um projeto gráfico arrojado, traz como destaque inéditos de Ítalo Calvino em tradução de Eclair Almeida e Bruna Ferraz e dossiê com o poeta e letrista Geraldo Carneiro. A poesia do galego Manuel Antonio com tradução de Jerusa Pires Ferreira e Josias Abdalla Duarte, além de Edward Lear, traduzido por Vinícius Alves. Tem também contos de Veronica Stigger e Márcia Barbieri, inéditos de Paulo Moreira, Wilmar Silva, Ygor Raduy e Solivan Brugnara e ensaio fotográfico de Rodrigo Braga. A contracapa é assinada por Beto. Há ainda os contos deste escriba que vos fala.

A  Coyote, infelizmente, não pode ser encontrada em bancas de jornal, mas já está à venda nas livrarias de todo o país. Pode também ser adquirida pela internet através do site: www.iluminuras.com.br



E já que toquei no assunto, pra quem ainda não baixou gratuitamente o meu livro Fantasmas, basta clicar aqui. Lancei no início do ano via Palhaço Triste Edições, editora que eu mesmo inventei. Este, por sua vez, não está nas bancas e nem nas livrarias.